quinta-feira, 19 de outubro de 2017

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - II

9.2 - Visita de D. Cósimo III de Medici em 1669 - I. Texto de António Coutinho Coelho, Gravura do Porto de Pier Maria Baldi, Gaia, Leça do Balio. Igreja S. Lourenço, Sé, Conventos de S. Bento de Avé Maria e Santa Clara, Vista sobre o Douro.




Texto de Xavier Coutinho

Relato da estadia no Porto
Desta visita ao Porto, retemos uma bela crónica, do Conde Lorenzo Magalotti, seu cronista e acompanhante, retirada da sua “Relazione del Viazzio del Portogallo e Galizia”, ilustrada por magníficas aguarelas de Pier Maria Baldi e de que reproduzimos um excerto, retirado do Boletim dos Amigos do Porto:
No dito dia 26 de Fevereiro de 1669, ouvida a missa numa pequena igreja paroquial dependente dos padres Jesuítas de Coimbra, que disfrutam aqui de propriedade de muitos bens, e prosseguindo o caminho após três léguas feitas através duma campina semelhante à do dia precedente, 


chegou a Vila Nova d’Além, que é uma extensa povoação que, descendo pela estreita garganta de dois montes com um só burgo, se espraia com algumas casas sobre a margem do rio Douro. Desta povoação passou a Alteza Sereníssima ao Porto, na vizinhança do qual era esperada por alguns padres Jesuítas com o séquito de diversas barcas, em parte cheias de gente e em parte vazias para levar a família de sua Alteza. A destinada à Alteza Sereníssima estava coberta nobremente com um toldo e cortinas e a popa toda enfeitada com tapetes e almofadas de veludo em volta da cadeira, que igualmente devia servir para a Alteza Sereníssima. Logo que chegou, começaram a soar todos os sinos da cidade, e continuaram quando a barca se afastou da margem, até que passando na vizinhança dos navios mercantes que estavam ancorados no porto, foi saudada por todos os canhões e com embandeiramento da cidade disposto sobre a outra margem do rio.


Ao desembarcar encontrou, com o seu coche de seis, o Senhor Lobo Pereira de Castro, Balio de Leça, da Ordem de S. João (que usufrui o rendimento de cerca de 18 000 cruzados) e com ele D. Sebastião César de Meneses. S. A. entrou na câmara com um e outro dos supramencionados cavaleiros que estavam do lado do cocheiro, e o senhor Cav. Castaglioni junto da porta.


Entrou Sua Alteza na cidade por volta das 11 horas da manhã, no meio de numerosíssimo povo, aglomerado nas ruas e nas janelas, das quais as mais próximas do Colégio dos Jesuítas, onde S.A. tinha destinado o quarto, estavam todas decoradas com tapetes e panos de seda.
Enquanto Sua Alteza esteve à mesa foi obsequiada com vinhos, aves, doces e frutas, pelo Reitor do Colégio.


Sé no séc. XVIII



Sé - lado Norte e galilé à noite - In Portolovers

Depois do jantar, servido pelos mesmos cavaleiros da manhã, foi ver a Sé e as relíquias que aí se conservam.


De lá passou às monjas de S. Bento onde teve uma diversão musical. Deu depois uma volta pela cidade 


Foto de Iva Vieira

e saiu fora de portas, donde se goza uma vista sobre o campo e o mar,


foi às monjas de Santa Clara e voltou aos Jesuítas. Ao desembarcar foi cumprimentada ainda pelo Chanceler da Câmara, que é a primeira pessoa da cidade, por ele governada na ausência do Conde de Miranda, Embaixador na Corte Católica, que com o título hereditário obtido do rei D. João IV por mercê das suas embaixadas feitas na Holanda, é por sucessão perpétuo governador dela. O mesmo Chanceler manifestou a ordem terminante recebida do Príncipe de Portugal para servir a A.S. que depois de jantar veio a S. Bento para retribuir os obséquios. S.A. sentou-se junto da grade, em cadeira de espaldar, ao lado sentaram-se sobre escabelos os dois Cavaleiros e sobre escabelo semelhante sentou-se em frente o Chanceler.


Dança do séc. XVII

Teve à noite a A.S. diversão de baile por um bailarino e alguns alunos do Colégio, que fizeram um baile figurado ao uso do país, estando todos vestidos de gala. Entretanto voltou o Chanceler, mas não sei como, não tendo sido feita logo a embaixada, ao sair já ele tinha partido. Estava aí também o Juiz de Fora, o qual em nome do Senado apresentou a S.A. um nobilíssimo e abundante presente de frutas cristalizadas e de doces. Despediu-se depois S.A. daqueles senhores, foi cumprimentada por Tomás Hill, comerciante inglês, que esteve durante muito tempo em Livorno, e retirou-se para repousar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - I

9.1 - D. Moninho Viegas - Texto de Artur de Magalhães Basto, D. Moninho liberta o Porto dos mouros, Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo, Convento de Alpendurada, Hotel de luxo no Convento de Alpendurada


Carvalhos do Monte - desenho de Gouveia Portuense - In O Tripeiro, Série V, Ano X 

Artur de Magalhães Basto relembra-nos, baseado num texto de Oliveira Martins um facto dos sécs. X - XI:



Porto - gravura de Pedro Teixeira Albernaz - 1634


Artur de Magalhães Basto – O Tripeiro, Série V, Ano X


Armas de D. Moninho Viegas – 950-1022


In Portugal Antigo e Moderno


Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo 

Munio Viegas, "o Gasco" (c. 950 - 1022, Batalha de Vila Boa do Bispo), foi um nobre medieval do condado de Coimbra.
Munio Viegas é uma figura importante na história do Porto; foi capitão da armada dos gascões, com a qual desembarcou na foz do rio Douro, vencendo os mouros e tomando a terra rio acima de ambas as margens, reconquistando do domínio de Almançor a cidade do Porto. Teria morrido junto a dois de seus filhos na Batalha de Vila Boa do Bispo.


Convento de Alpendurada



Convento de Alpendurada - exterior

“Acredite, vai querer ouvir esta história. Mesmo que ela possa ser, como tudo na História, apenas uma lenda. E a lenda do Convento de Alpendurada diz que o mosteiro só existe porque antes existiu uma história de amor e vingança.
Antes de Portugal ser Portugal, mandava D. Fernando Magno, rei de Castela e Leão. Aqui vivia D. Moninho Viegas, tio-avô de Egas Moniz. Este homem, muito rico, amava uma nobre donzela, mas quando estava prestes a casar com ela, a rapariga foi pedida em casamento por um poderoso cavaleiro Mouro. O pai não aceitou e o mouro apunhalou-o diante da filha. A filha arrancou o punhal do peito do pai e matou-se também.
Quando D. Moninho Viegas soube tão triste história, jurou cruel vingança contra o mouro e a sua raça e foi com sua hoste fazer guerra crua aos infiéis. Depois de derramar muito sangue, prometeu que se saísse vivo da guerra, fundaria um Convento. E cumpriu o voto. 



Nasceu assim, no início do século XI, o convento de Alpendurada, localizado na região demarcada do Douro, Património Mundial da UNESCO, que foi também lugar de eleição do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Trata-se de um concentrado de luxo único e raro: estruturas e ornamentações barrocas, rococó e neoclássicas. A igreja primitiva prende-se à fé e à peregrinação a Santiago de Compostela.
Até ao princípio do século XV, foi governado por abades perpétuos, depois por abades comandatários e depois por priores trienais eleitos. Em 1834, no âmbito da Reforma Geral do Clero, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas.







Hoje, o imóvel foi restaurado e transformado num hotel de luxo para preservar o valor histórico e cultural com o conforto e necessidades dos nossos dias. A grandeza do edifício harmoniza perfeitamente com os azulejos portugueses, os móveis do Séc. XVII e XVIII, candelabros e quartos com influência Romana e Árabe. As celas dos monges ainda mantêm a sua austeridade, mas são agora 40 confortáveis suites, fornecendo a máxima tranquilidade e serenidade.


Para além do Convento existem também 20 casas restauradas, originalmente construídas pelos Beneditinos. Uma grande variedade de quartos com valor arquitectónico único fornecem uma configuração completa e diversificada de espaço para eventos e reuniões, uma cozinha medieval e uma capela. Uma rara colecção de carruagens restauradas é parte do legado do convento. In Luximos.pt

Convento de Alpendurada - vídeo

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

REVOLTA DE 3 DE FEVEREIRO DE 1927 - II

8.1.17 – Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 - Comité Revolucionário do Norte, Lisboa não adere à revolta, Jaime Moraes em Gaia negoceia rendição, Altar da Igreja dos Congregados atingido, Prisioneiros no Funchal.


Jaime Morais fugitivo na Galiza

Na tarde deste dia, o comandante Jaime de Morais, chefe militar do Comité Revolucionário do Norte, enviou ao general Óscar Carmona, Presidente da República, um telegrama contendo um ultimato em que se afirmava: Os oficiais revoltosos decidiram reintegrar o País dentro do regímen democrático constitucional, com a formação de um Governo Nacional que afirmasse a supremacia do poder civil, guardado e defendido pela força armada, que assim teria restituído as funções de que a desviaram .
Nesse mesmo dia 4 de Fevereiro, e nos dias imediatos, juntaram-se aos revoltosos do Porto forças provenientes de Penafiel, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Peso da Régua e Lamego. Vinda de Amarante chegou mais artilharia, a qual foi estacionada nas imediações de Monte Pedral. A artilharia da Figueira da Foz foi detida na Pampilhosa quando se dirigia para o Porto.
Ao contrário do previsto pelos revoltosos, até ao final do dia 4 de Fevereiro não se registaram quaisquer adesões em Lisboa, centro vital do poder político-militar, o que permitiu ao Ministro da Guerra, coronel Passos e Sousa, concentrar todas as forças no combate aos entrincheirados no Porto. Na tarde deste dia, a posição dos revoltosos era crítica, já que os pró-governamentais dominavam Lisboa e todo o sul de Portugal e controlavam a margem sul do Douro, tornando improvável o reforço das tropas revoltosas.
Entretanto, na manhã do dia 5 de Fevereiro o vapor Infante de Sagres chegava a Leixões, com tropas governamentais, comandadas pelo coronel Augusto Manuel Farinha Beirão, enquanto mais forças governamentais atravessavam o Douro em Valbom e se encaminhavam para o centro da cidade…


O Comandante Jaime de Moraes e o Major Zeferino (vendados), parlamentários dos revolucionários, entrando para o G.Q.G (quartel-general do Ministro da Guerra tenente-coronel Abílio Valdez Passos e Sousa, na avenida das Devezas, Vila Nova de Gaia).

…Nessa mesma manhã desenvolve-se uma tentativa de conciliação, que leva o comandante Jaime de Morais e o major Severino a visitar o quartel-general do Ministro da Guerra, instalado num prédio da Avenida das Devezas, em Gaia, numa tentativa de negociar a rendição em troca da liberdade para os revoltosos. Os parlamentários dos revolucionários foram obrigados a atravessar a cidade vendados, mas o resultado foi inconclusivo já que o Ministro recusou uma rendição que não fosse incondicional: ou a rendição total ou o bombardeamento da cidade. 



Falhada a conciliação, a partir das 16 horas do dia 5 de Fevereiro travou-se um grande duelo de artilharia entre as duas margens do rio Douro.
Durante a tarde do dia 5 de Fevereiro começou a montar-se o cerco aos revoltosos, envolvendo o Porto num anel de fogo e metralha: pelo norte, as tropas desembarcadas em Leixões pelo Infante de Sagres; por leste, tropas fiéis ao Governo vindas de Bragança e da Régua, chefiadas por António Lopes Mateus; e a sul, em Vila Nova de Gaia, concentram-se cerca de 4 000 homens vindos de várias guarnições, munidos de farta artilharia. Perante o apertar do cerco, na noite de 5 de Fevereiro, os revoltosos propõem um armistício, mas Passos e Sousa responde, na manhã do dia 6, com o reiterar da exigência de uma rendição incondicional e a ameaça de bombardeamentos ainda mais intenso e pesado, incluindo o recurso a obuses.
Raul Proença regressou a Lisboa na noite de 6 de Fevereiro para pedir auxílio e para tentar desencadear a revolta naquela cidade, já que o movimento, sem os apoios esperados, começava a enfrentar sérias dificuldades no Porto.
Naquelas circunstâncias só restava negociar a rendição, já que um ataque à baioneta contra as baterias governamentais da Serra do Pilar (Gaia) que invertesse a situação era virtualmente impossível e muito provavelmente redundaria num banho de sangue, sendo certo o bombardeamento da cidade. Com os olhos postos em Lisboa, onde a muito custo e com uma lentidão exasperante o movimento parecia finalmente arrancar, os revoltosos resistem durante os dias 6 e 7 de Fevereiro, mas à medida que as horas passam e as munições se esgotam cresce o sentimento de derrota e sobem de tom as vozes que advogam a rendição.


Finalmente, na tarde do dia 7 de Fevereiro, esgotadas as munições, o quartel-general dos revoltosos, instalado no Teatro de S. João, manda dispersar os civis ali aquartelados. À meia-noite o general Sousa Dias faz chegar ao Regimento de Artilharia 5, em Gaia, por intermédio do major Alves Viana, da GNR, um documento apenas por si subscrito, em que propõe a rendição, com salvaguarda da isenção de responsabilidades de sargentos, cabos e soldados. Passos e Sousa aceita apenas a isenção de cabos e soldados, declarando que os oficiais e sargentos envolvidos seriam punidos. Qualquer civil apanhado de armas na mão seria imediatamente fuzilado.
Sem mais opções, pelas 3:00 horas da madrugada do dia 8 de Fevereiro Sousa Dias aceita as condições propostas e ordena a rendição dos revoltosos. Pelas 8:30 horas,


Passos e Sousa entra triunfalmente na cidade, pela Ponte D. Luís. Estava terminada a revolta no Porto.


Desfazendo as trincheiras


Durante os 5 dias que durou a revolta no Porto perderam a vida mais de 100 pessoas, entre militares e civis, entre os quais o jornalista António Maria Lopes Teixeira, director do Diário do Porto. Foram mais de 500 os feridos, alguns dos quais viriam a sucumbir nos dias imediatos. Os estragos causados pelos bombardeamentos e tiroteios também foram grandes, com muitas casas devastadas e muitos edifícios públicos grandemente danificados. In Wikipédia


Jornalistas que cobriram a revolta


"Transporte 'Infante de Sagres'
Em 6 [6 de Março de 1927], saiu de Lisboa, às 16 H 45, transportando forças descritas no 'Século' de 17.
Chegou a Leixões às 13 H de 7, começando o desembarque às 14 H. - o qual se concluiu às 21 H 30. Entraram os prisioneiros para bordo, permanecendo em Leixões até ao dia 13 às 19 H; quando foi levantado ferro para Lisboa, ancorando a O. Da Torre de Belém às 10 H do dia 14. às 21 H 40 do dia 17 levantamos de Lisboa com rumo ao Sul indo fundiar na Baía da Baleeira (Sagres) às 11 H 35 de 18. Levantamos ferro em 19, às 13 H, com ordem superior para o Comandante de bandeira perder de vista terra e só então caminhar para Norte (?). O Com.te explica que é por causa dos boatos que circulam em Lisboa, e, portanto, para que, ao longo da costa, não se consiga seguir o 'Infante de Sagres' - dando margem a boatos de revolta no navio (!!!...).
Fundeamos a O. Da Torre de Belém às 4 H 30 de 20. Efectuei transbordo para o 'Lourenço Marques' às 10 H 45 deste dia.
Às 15 H, o meu filho, com os pequenos, vieram visitar-me, sendo-lhe recusada a entrada pelo Com.te João Batista de Barros (um 2º ten. foi-lhe pedir dizendo-me que estava renitente)"
[A Deportação para S. Tomé (Notas do general Sousa Dias), in, "O General Sousa Dias e as Revoltas Contra a Ditadura 1926-1931", org. por A. H. de Oliveira Marques, Dom Quixote, 1975, p. 55.
FOTO - 'Deportados políticos. Lazareto, Funchal, Dezembro de 1927. O general Sousa Dias é o 4º (sentado) a contar da esquerda' - retirada do livro, com a devida vénia].  J.M.M. - arepublicano.blogspot.com

O velho Porto em fotografias 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

REVOLTA DE 3 DE FEVEREIRO DE 1927 - I

8.1.17 – Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 - Revoltosos no cimo da Rua de 31 de Janeiro - Praça da Batalha - Largo do Corpo da Guarda - Rua Alexandre Herculano, General Sousa Dias, Jaime Cortesão, Quartel-General e Governo Civil, Regimento de  Aveiro e Amarante, GNR do Porto


Confluência das Ruas de Santa Catarina e 31 de Janeiro

Após a Revolução de 28 de Maio de 1926 houve, da parte de algumas unidades militares, tentativas para derrubar o novo regime.
A Revolta de 3 de Fevereiro de 1927 foi a mais violenta. 

“A rebelião iniciou-se pelas 4:30 da madrugada do dia 3 de Fevereiro, com a saída do Regimento de Caçadores 9, a que se juntou a maior parte do Regimento de Cavalaria 6, vindo de Penafiel, vários núcleos de outros regimentos da cidade e uma companhia da Guarda Nacional Republicana aquartelada na Bela Vista, Porto.


O comando das forças fora confiado ao general Adalberto Gastão de Sousa Dias, tendo como chefe do estado-maior o coronel Fernando Freiria, apoiado por um comité revolucionário constituído por Jaime Cortesão, Raul Proença, Jaime Alberto de Castro Morais, João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e João Pereira de Carvalho. Entre os apoiantes incluía-se também José Domingues dos Santos, o líder da esquerda democrática que em 1918 dirigira a conspiração civil contra a Monarquia do Norte.


Jaime Cortesão foi de imediato nomeado governador civil do Porto e Raul Proença, além de conspirador, foi organizador e combatente de armas na mão, servindo de ligação aos co-conspiradores de Lisboa.


Antigo Quartel-General e Governo Civil na Batalha


Correios da Batalha no antigo palacete da família Guedes

Durante a madrugada e manhã do dia 3 de Fevereiro, as forças dos revoltosos dirigiram-se para a zona da Praça da Batalha, onde estavam as sedes do quartel-general da Região Militar e do Governo Civil e a mais importante estação do telégrafo. As forças governamentais, depois de algumas horas de desorganização, passaram a ser constituídas por uma parte reduzida do Regimento de Infantaria 18, que tinha como comandante o coronel Raul Peres, o Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5, este aquartelado na Serra do Pilar. Na tarde do dia 3 de Fevereiro, sob o comando do coronel João Carlos Craveiro Lopes, chefe do estado-maior da Região Militar e governador militar da cidade, as forças pró-governamentais concentraram-se no quartel da Serra do Pilar e abriram fogo de artilharia contra os revoltosos. (Este coronel era pai do futuro Presidente Francisco Craveiro Lopes).
Na manhã desse mesmo dia 3 de Fevereiro, numa manobra arriscada, mas indicativa da certeza de que estava assegurada a fidelidade ao Governo das tropas de Lisboa, o Ministro da Guerra, coronel Abílio Augusto Valdez de Passos e Sousa, saiu de Lisboa num comboio com destino a Vila Nova de Gaia, onde chegou ao anoitecer. Assumiu então o controlo operacional das forças pró-governamentais ali instaladas sob o comando do coronel João Carlos Craveiro Lopes, mantendo-se na frente de combate até à subjugação dos revoltosos.


Regimento de Artilharia de Amarante em exercícios no Convento de S. Gonçalo

Logo na manhã de 4 de Fevereiro, juntaram-se aos revoltosos os militares do Regimento de Artilharia de Amarante, cujas peças de artilharia obrigaram as forças governamentais a recuar para o Monte da Virgem, de onde o bombardeamento sobre os revoltosos prosseguiu. 
Nessa mesma manhã, as forças revoltosas concentram-se na zona citadina em torno da Praça da Batalha, em redor da qual se montaram trincheiras, metralhadoras e peças de artilharia.


Na confluência da Praça da Batalha com a Rua de Entreparedes foram instaladas duas peças de artilharia 6.


Quartel de Sá – Aveiro (sem data)

Na manhã do dia 4 de Fevereiro, o Regimento de Cavalaria 8, vindo de Aveiro, fiel ao Governo, conseguiu penetrar o fogo dos revolucionários e atravessar a Ponte de D. Luís, mas foi detido pelas barricadas que defendiam a Praça da Batalha. A mesma sorte tiveram as tropas fiéis ao Governo aquarteladas na própria cidade do Porto, que foram rechaçadas pelo intenso fogo das trincheiras dos revolucionários quando tentaram avançar sobre as posições dos sublevados.


Revoltosos na confluência das Ruas de 31 de Janeiro e de Santa Catarina. À esquerda vê-se a saudosa Tabacaria Africana

Entretanto começaram a chegar mensagens de adesão de diversas guarnições, mas não das esperadas guarnições de Lisboa. Aderem tropas pertencentes a unidades aquarteladas em Viana do Castelo, Figueira da Foz e Faro, estas últimas apoiadas por forças de Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António, mas por falta de apoio, particularmente de Lisboa, os recontros nestas cidades são esporádicos e a rebelião foi, na maior parte dos casos, subjugada em escassas horas.


Raul Proença

Na tarde de 4 de Fevereiro, quando as adesões militares não corresponderam ao esperado, Raul Proença, profundamente envolvido na revolta, convoca os civis para combaterem ao lado dos revoltosos, mas com pouco sucesso. O movimento haveria de se manter até ao fim essencialmente militar, sendo poucas as adesões civis.


Guarda Nacional Republicana no quartel do Carmo - 1910

Mesmo as restantes forças da Guarda Nacional Republicana estacionadas no Porto e seus arredores fizeram saber, através do seu comandante, major Alves Viana, que se manteriam neutrais, garantindo o policiamento da cidade "em defesa das vidas e dos haveres dos cidadãos", mas não interferindo na contenda entre militares.

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No alto da Rua 31 de Janeiro – de lado, o soldado Emídio Guerreiro

Ao longo do dia foram sendo consolidadas as defesas do perímetro em torno da Praça da Batalha, com a colocação ao cimo da Rua de 31 de Janeiro, na bifurcação com a Rua de Santa Catarina, de uma metralhadora para impedir a progressão naquelas ruas. Tal foi a mortandade causada pela metralhadora ali colocada que a posição foi cognominada de a trincheira da morte.


Largo do Corpo da Guarda antes das demolições para a abertura da Avenida da Ponte

Para completar o perímetro defensivo, foi colocada outra metralhadora numa trincheira construída na confluência das ruas de Cima de Vila e da Madeira, montada uma peça de artilharia à esquina do edifício do Hospital da Ordem do Terço, voltada para a Rua do Cativo, e colocada uma metralhadora no desaparecido Largo do Corpo da Guarda, ao cimo da rua que ainda mantém esta designação.


Guarnição na Rua de Alexandre Herculano

Para além disso, levantou-se o pavimento e montaram-se duas peças de artilharia na Rua de Alexandre Herculano, na junção com a Praça da Batalha e a Rua de Entreparedes.
Para além de soldados do Regimento de Infantaria 6, de Penafiel, e da GNR da Bela Vista estacionados ao longo da Rua Chã, foram colocadas "vedetas", patrulhas constituídas por soldados e civis, ao longo de todo o perímetro.