domingo, 23 de abril de 2017

CONTRACTO DE EL-REI D. JOÃO I COM O BISPO E CABIDO

7.6 – Contrato de el-rei D. João I com o Bispo e Cabido - Rua Formosa, Centro Histórico do Porto, Casamento D. João I, Convento  e Igreja de S. Clara, Arquivo Hitórico do Porto


Gravura de J. Holland (1838) – Saída do Viático - Inicialmente chamada R. Formosa por D. João I, R. S. Nicolau (em 1788), R. Nova dos Ingleses (até 1883), Rua dos Ingleses (até 1890), actual R. do Infante D. Henrique.


Centro histórico do Porto – pormenor do mapa de Teles Ferreira - 1892

celebrou úteis
e contendas, persistia com tanto escândalo da Igreja.


chamava a sua Rua Formosa.

“E El Rei saiu daqueles paços em cima de um cavalo branco, em panos de ouro realmente vestido; e a rainha em outro tal, mui nobremente guarnida. Levavam nas cabeças coroas de ouro ricamente obradas de pedras de aljofar e de grande preço, não indo arredados um do outro, mas ambos a igual. Os moços de cavalos levavam as mais honradas pessoas que eram e todos de pé muito corregidos. E o arcebispo levava a Rainha da rédea. Diante iam pipas e trombetas e outros instrumentos que se não podiam ouvir. Donas filhas dalgo isso mesmo da cidade cantavam indo de trás, como é costuma de bodas. A gente era tanta que se não podiam reger nem ordenar pelo espaço que era pequeno dos paços à igreja e assim chegaram à porta da Sé, que era dali muito perto, onde dom Rodrigo, bispo da cidade, já estava festivalmente em pontifical revestido, Esperando com a cleresia. O qual os tomou pelas mãos, e demoveu a dizer aquelas palavras que a Santa Igreja manda que se digam em tal sacramento. Então disse a missa e pregação; e acabou seu ofício, tornaram El Rei e a Rainha aos paços donde partiram com semelhante festa, onde haviam de comer. As mesas estavam já guarnidas e todo o que lhe cumprira; não somente onde os noivos haviam de estar, mas aquelas onde era ordenado de comerem bispos e outras honradas pessoas de fidalgos e burgueses do lugar e donas e donzelas do paço e da cidade. E o mestre-sala da boda era Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal; servidores de toalha e copa e doutros ofícios eram grandes fidalgos e cavaleiros, onde houve assaz de iguarias de desvairadas maneiras de manjares. Enquanto o espaço de comer durou, faziam jogos à vista de todos, homens que o bem sabiam fazer, assim como trepar em cordas e tornos de mesas e salto real e outras coisas de sabor; as quais acabadas, alçaram-se todos e começaram a dançar, e as donas em seu bando cantando a redor com grande prazer.” Crónica de D. João I de Fernão Lopes


Convento de Santa Clara: As Franciscanas Clarissas instalaram-se no séc. XIII num pequeno convento em Entre-os-Rios. Considerado um local perigoso pelas incursões castelhanas, pediram à rainha D. Filipa de Lencastre que as autorizasse a construir um novo convento no Porto, o que lhes foi autorizado por D. João I. Em 28 de Março de 1416 foi colocada a primeira pedra do convento na presença do rei e de seus filhos D. Fernando e D. Afonso. As freiras mudaram-se em 1427 e a igreja foi concluída em 1457. Entre 1708 e 1715 realizaram-se grandes obras de ampliação do convento. Com a morte da última freira foi encerrado em fins do séc. XIX.


Convento de Santa Clara – igreja e dormitórios




A partir de 1730 a igreja foi coberta pelas maravilhosas talhas joaninas, que a tornaram numa das jóias do barroco.


 Porto Medieval – In História do Porto – Luis Oliveira Ramos

“Há exactamente seiscentos anos, a 13 de Abril de 1406, o longo braço-de-ferro entre o clero e a burguesia portuense chegou, porém, ao fim. Entrava em vigor o acordo assinado em Fevereiro de 1405, em Montemor-o-Novo, e que estabeleceu a autonomia administrativa do Porto.



Carta foral dada por D. Hugo aos moradores do porto

Até então, e durante quase trezentos anos, a cidade fora propriedade do bispo, por força da doação que D. Teresa fez a D. Hugo em 18 de Abril de 1120.
A data que se assinala na próxima quinta-feira, e que não será objecto de nenhuma comemoração oficial, é considerada uma das mais significativas da história portuense, fundamental para aquilo que o Porto veio a ser: a 13 de Abril de 1406, a cidade deixou de estar sujeita a um regime senhorial e passou a ser um município sob jurisdição da Coroa portuguesa. 
"Os portuenses passavam, a partir daí, a ser senhores do seu próprio destino", assinala, num artigo recentemente publicado no Jornal de Notícias, o jornalista Germano Silva, um dos mais persistentes estudiosos da história da cidade.



Couto Episcopal do Porto

Ao abrigo do Estormento feito antre ellrey e o obispo do Porto sobre ajuridiçom, o rei D. João I e o bispo de então, D. Gil Alma, acordaram que o cabido cedia os direitos administrativos que exercia sobre a cidade, cabendo ao rei pagar, a título compensatório, três mil libras anuais ao bispo. Para assegurar o pagamento, logo D. João I assinalou todallas rrendas e penssõoes de todallas casas queo dito Senhor Rey ha na dita cidade do Porto. No caso de estas verbas não serem suficientes, o rei podia ainda recorrer às rendas da Alfândega, devendo o pagamento manter-se até à conclusão da actual Rua do Infante D. Henrique. 


Rua do Infante D. Henrique - gravura do Barão de Forrester

Depois disso, D. João I comprometia-se a ceder ao bispo, na nova artéria, tantas casas quantas fossem necessárias para perfazer o valor da indemnização.
No final do acordo firmado em 1405, e que viria a ser confirmado por escritura a 13 de Abril de 1406, o rei comprometia-se ainda a obter o acordo do Papa Inocêncio VI para o negócio. E sse por ventura o papa nom quiser outorgar esta conueença ataa huum ano do dia da feytura deste contrato, ou pelo dito Bispo e cabido ficar que se nom autorgue, que ellrey nom seia tehudo de dar estes dinheyros".
A bula papal acabaria por ser expedida a 9 de Outubro de 1405 para o bispo de Lisboa, D. João de Azambuja, que havia precedido D. Gil Alma na diocese do Porto, tendo a escritura pública de transferência da jurisdição da cidade sido assinada a 13 de Abril de 1406, no Paço Real de Santarém. Para além de D. João I e de D. João de Azambuja, estiveram presentes dois procuradores do bispo do Porto e João Afonso, chantre da diocese portucalense. Nesse mesmo dia, o rei ordenou a publicação da carta régia dando conhecimento do teor do acordo.
"Os bispos cederam porque, por mal, ia tudo de graça", sustenta D. Rodrigo da Cunha, historiador e arcebispo de Lisboa e Braga na primeira metade do século XVII, dando assim nota do clima de mal-estar que há muito se vivia na cidade, então com cerca de oito mil habitantes e ainda cercada pelas muralhas mandadas construir pelo rei D. Fernando, com cerca de três mil metros de extensão. O conflito era antigo (ver texto ao lado) e opunha ao cabido os mercadores, proprietários de navios, ourives-cambistas e agentes do fisco, os quais ocupavam já, segundo o historiador Armindo de Sousa, o poder autárquico da época, constituíam uma espécie de oligarquia hereditária e eram os interlocutores privilegiados da Coroa na cidade.


D.João I 

O Porto, nota Armindo de Sousa no livro Conflitos entre o bispo e a Câmara do Porto em meados do século XV, "buscava a dependência directa da Coroa, ciente de que por ela passava uma definição mais genuína das liberdades e uma mais sólida garantia dos seus interesses: uma cidade comercial sujeita a mero e misto império episcopal só a muito custo podia singrar. Não convinha, pois, ao burgo portuense um regime jurisdicional próprio das comunidades rurais".
Para além dos motivos que este trecho torna óbvios, à tomada de posição de D. João I não terá sido estranho o facto de o Porto ter sido, em 1383, a segunda cidade a aderir à causa do rei durante a guerra civil que se seguiu à morte de D. Fernando e à sua sucessão por D. Beatriz, casada com o rei de Castela. Provavelmente grato pela armada enviada pela cidade para socorrer a Coroa durante o cerco castelhano de Lisboa, em 1384, D. João escolheu o Porto para casar com D. Filipa de Lencastre, em 1387,



À direita registo das despesas do baptismo do Infante – Arquivo Municipal do Porto

e, depois, em 1394, para que aqui nascesse o infante D. Henrique, no edifício da Alfândega Régia (a actual Casa do Infante).
Apesar da importância atribuída à libertação do Porto do estatuto feudal em que viveu até então, não deverá deixar de se notar, seiscentos anos depois, que, apesar da jurisdição eclesiástica, sempre houve agentes do fisco régio nos limites do couto e que nem todos os cidadãos se reconheciam vassalos da mitra. De igual modo importa notar que, após o 13 de Abril de 1406, parte dos impostos continuaram a ser cobrados para sustentar o bispo, o cabido e a fábrica das igrejas, situação a que só Mouzinho da Silveira pôs cobro, em 1832, com a abolição dos forais.
Germano Silva, no já referido artigo, nota ainda que a Coroa nunca chegou a cumprir integralmente o acordo de Montemor-o-Novo, por causa das sucessivas desvalorizações da moeda. A questão em torno da jurisdição da muy nobre honrrada leal Cidade do Porto estava, em todo o caso, resolvida”. In Público – 9/4/2006

Arquivo Histórico do Porto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

FOI ESTIMADA POR MUITOS REIS III

7.5.3 - Foi estimada de muitos reis III - D. Manuel II - visitas ao Porto de 1908 e 1909, Palacio Real no Porto



D. Manuel II visitou o Porto pelo menos 2 vezes e tecia os maiores elogios aos seus cidadãos. 
A família real portuguesa não tinha uma residência oficial no Porto, pelo que, quando nos visitava, ficava no Paço Episcopal. Em 25/6/1861. D. Pedro V comprou o Palácio dos Carrancas por 35 contos de reis. 
"Já em 1915 D. Manuel II deliberou, no seu testamento, entregar o edifício à Misericórdia para que esta instituição aí instalasse um hospital; um documento só conhecido em 1932, aquando da morte do rei. 
Vasco Valente, director do Museu Nacional Soares dos Reis (instalado, desde 1833, em péssimas condições, no edifício de Santo António da Cidade, em S. Lázaro), inicia negociações com o Estado e a Misericórdia para transferir o museu para o palácio devoluto. À luz da museologia da época, o edifício adequava-se na perfeição à função de museu: qualidade arquitectónica, estilo neoclássico e tradição histórica. Sob a orientação do Engº Fernandes Sá, iniciam-se as obras de adaptação, a cargo da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, sendo o Museu inaugurado em 1942. À época, as alterações mais notáveis consistiram na transformação das oficinas da antiga fábrica em galerias com iluminação zenital, destinada à pintura, assim como, a criação de uma galeria de escultura, para alojar a obra de Soares dos Reis. 
Com excepção de algumas intervenções de pormenor, o Museu é apenas alvo de transformação maior a partir de 1992: projecto de remodelação e expansão da autoria do arquitecto Fernando Távora. Decorrendo a um ritmo lento, o projecto é concretizado em Julho de 2001, dentro da realização do Porto, Capital Europeia da Cultura. A remodelação permite renovar o discurso expositivo da pintura e da escultura portuguesa dos séculos XIX-XX e, também, das artes decorativas que, pela primeira vez, se apresentam na mesma unidade espacial. Em diálogo com as zonas verdes, são criados novos espaços, tais como um auditório, um departamento educativo e salas de exposições temporárias, sendo o Museu dotado de uma actividade regular de animação cultural. As necessidades contemporâneas são satisfeitas, através da criação de novas zonas de acolhimento, cafetaria, loja, acessos ao nível do rés-do-chão e infra-estruturas indispensáveis ao funcionamento interno.
Em suma, assiste-se ao renascimento do Museu. Site do M.N.S.R.


Chegada de D. Manuel II ao Porto – Novembro de 1908


1908



Na Rua dos Clérigos - 1908


Praça de Santo Ovídio - 1908


Recepção na C. M. do Porto - 1908


Rua de Santo António - 1908


Esta foto mostra a bandeira monárquica hasteada, a guarita ocupada, vários outros militares nas imediações com botas e calças apertadas Tem árvores que se não vêem na de baixo, pelo que depreendemos ser mais antiga.



A foto acima deve ter sido tirada durante a visita ao Porto de D. Manuel II e de sua mãe D. Amélia, em Novembro de 1908. Nesta foto também está hasteada uma bandeira no Hospital de Santo António e já se vê a linha do Americano ou eléctrico. Em primeiro plano encontra-se um padre.


In O Tripeiro, Volume 1 – 10/12/1908

Visita ao Porto de D. Manuel II em 1909
http://www.youtube.com/watch?v=SfggPLpTTY8



Visita de D. Manuel II à Igreja da Lapa, onde se encontra o coração do seu antepassado D. Pedro IV.


D. Manuel II saúda os portuenses da varanda do palácio real. Vêem-se muito bem os armazéns do Hospital de Santo António e a chaminé da caldeira. Mais ao fundo as traseiras da ala frontal e a Torre dos Clérigos.


Com D. Amélia


Lançamento da primeira pedra do monumento à Guerra Peninsular na rotunda da Boavista - 1909

Aclamação D. Manuel II

Memória de D. Manuel II

O exílio
https://www.youtube.com/watch?v=AmMWW9O76nk

You Tube – reis de Portugal

quarta-feira, 19 de abril de 2017

FOI ESTIMADA DE MUITOS REIS II

7.5.2 - Foi estimada de muitos reis II - D. Pedro IV, D. Pedro V, Palácio da Bolsa, Palácio de Cristal - construção, Memória a D. Pedro V, Fábrica da Estamparia do Bolhão


Foi D. Pedro IV, sem dúvida, o rei que mais viveu o Porto e no Porto após o seu desembarque na praia do Mindelo e aqui o ocupou com a finalidade de substituir o absolutismo e instalar o Liberalismo.
Como dedicaremos um capítulo ao Cerco do Porto não entraremos, neste momento, em mais pormenor sobre este rei que deixou o seu coração à cidade.


D. Pedro V foi um dos reis que mais se sentiu ligado ao Porto e que o Porto mais apreciou. Apreciava a sua gente como trabalhadora e liberal e não dada a pergaminhos.


Antes da construção do Palácio de Cristal houve exposições agrícolas e industriais nesta cidade. De destacar o êxito da agrícola e industrial de 1857, a que já nos referimos em 8/9/2013…


Palácio da Bolsa - 1861

…bem como a industrial de 25 de Agosto a 16 de Setembro de 1861, realizada no Palácio da Bolsa. Esta, teve tal sucesso que o rei D. Pedro V a visitou por três vezes.



Aproveitando a sua presença na cidade, foi-lhe pedido que presidisse ao lançamento da primeira pedra do Palácio de Cristal, a que ele acedeu, e se realizou em 3/9/1861. Fruto destes êxitos e por iniciativa de alguns ilustres portuenses, dos quais se destacou Alfredo Allen, 1º visconde de Villar d'Allen, numa época de grande desenvolvimento da indústria no norte do país e em especial na nossa cidade do Porto, foi construído um edifício à semelhança do Crystal Palace de Londres. Tinha por finalidade a realização, em lugar condigno, da grande Exposição Internacional do Porto, que se realizou em 1865. Para tal, acrescentaram-se ao terreno camarário da Torre da Marca, na Rua dos Quartéis, hoje Rua D. Manuel II, os 7 campos particulares em volta. A sua construção foi iniciada em 1861 e o autor do projecto, de três naves, foi o arquitecto inglês Thomas Dillen Jones.


À esquerda a Rua de Fernandes Tomás com caixas para envio de mercadoria da Fábrica de Estamparia do Bolhão – á direita a memória a D. Pedro V e o Mercado do Bolhão em construção – foto Alvão.


Mercado do Bolhão em construção – vê-se a Memória a D. Pedro V – foi erigida, em 9 de Julho de 1862, pelos sócios e operários das Estamparia e Fundição do Bolhão em memória das visitas deste rei em 22/11/1860 e 28/8/1861. Foi retirada em 1914 aquando das obras do novo mercado – está actualmente no cemitério do Prado do Repouso junto do jazigo dos bombeiros falecidos.


“Nas vésperas do Natal de 1861, pouco mais de um mês após a prematura morte de D. Pedro V, com apenas 24 anos de idade e seis de reinado, os proprietários e artistas de duas importantes fábricas portuenses - a Fundição do Bolhão, fundada em 1847 por José Vitorino Damásio, Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães e Joaquim António da Silva Guimarães, este último também o proprietário da outra fábrica, a Estamparia do Bolhão, fundada em 1850, e ambas então instaladas na Rua de Fernandes Tomás, em frente da antiga Praça do Bolhão - tomaram a iniciativa de erguer um monumento de homenagem ao recém-falecido monarca, nas proximidades das instalações dos seus estabelecimentos industriais. Para além de corroborarem o desejo de perpetuar a memória do tão desafortunado príncipe, e a verdadeira afeição que de um modo geral os portuenses lhe dedicavam, os proprietários das duas fábricas pretendiam manifestar também o seu reconhecimento pela visita com que, recentemente, o monarca os tinha honrado, testemunhando o seu apoio às forças do trabalho, assim como o seu interesse pelo desenvolvimento industrial da cidade e do país. O monumento em memória de D. Pedro V, que, de imediato, começou a ser construído, era essencialmente constituído por uma coluna toscana, monolítica, de granito, sem grandes subtilezas arquitectónicas, mas que representou, no entanto, a primeira manifestação deste tipo erguida em homenagem ao ilustrado monarca. 
Construído com base numa única e enorme pedra de granito, não deixa de apresentar algum interesse referir que para a condução desta, da respectiva pedreira em Águas Santas até ao local de implantação do monumento - numa distância de apenas dois quilómetros - foram necessários catorze dias e utilizadas vinte juntas de bois e quarenta trabalhadores, o que nos elucida sobre a então existente falta de aplicação de meios mecânicos, a qual já não se justificava no terceiro quartel do século XIX. A coluna que compunha o monumento, assim como o respectivo pedestal, assentava sobre dois degraus, defendidos por uma simples mas graciosa grade de ferro fundido. O monumento apresentava uma altura de 7,52 metros, desde a base até ao extremo superior da estrela de sete raios que o encimava. Iniciada a sua construção a 23 de Dezembro de 1861, foi concluída e inaugurada em 9 de Julho do ano seguinte, precisamente no mesmo dia em que na então Praça de D. Pedro - actual Praça da Liberdade - se lançava a primeira pedra da estátua equestre do "Primeiro Campeão" das liberdades pátrias, como na época o duque de Bragança ainda era designado.Implantado próximo das duas referidas fábricas, numa meia-lua sobranceira à dupla rampa que então estabelecia a comunicação entre os arruamentos que circundavam o antigo mercado do Bolhão e a Rua de Fernandes Tomás - podendo, aliás, ser visto em algumas das fotografias e postais ilustrados da época -, o monumento em homenagem a D. Pedro V ostentava em cada uma das suas quatro faces várias inscrições. Na face do lado norte estava gravada uma oitava, da autoria de um engenheiro, poeta nas horas vagas, e que segundo algumas vozes críticas, entre as quais a de Guerra Junqueiro, "fazia versos com a brita que lhe sobrava das estradas". De facto, embora sem grandes pretensões nem apuramento poético, os versos em causa constituíam essencialmente um testemunho sincero dos promotores daquela iniciativa: "Ao rei D. Pedro quinto - memorando - /da indústria e artes protector subido; /Qu'as vaidade do solio descurando, /Teve um throno d'amor na pátria erguido; /Que as fábricas em frente vizitando /Da estampa e fundição salvou do olvido... / Artistas, a quem deu favor e alento, /Consagram este humilde monumento!...".Na face do lado sul apresentava esta outra inscrição: "Teve princípio em 23 de Dezembro de 1861. Concluiu-se em 9 de Julho de 1862". Na face do lado poente: "Visitou a fábrica da fundição em 22 de Novembro de 1860". E na face do lado nascente: "Visitou a fábrica de estamparia em 28 de Agosto de 1861".Tal como o personagem a quem tinha sido dedicado, o monumento da Rua de Fernandes Tomás conheceu um fim relativamente trágico. A aprovação do "Anteprojecto do Novo Mercado do Bolhão", em 25 de Agosto de 1910, e o consequente projecto de prolongamento da Rua de Sá da Bandeira, entre as Ruas Formosa e de Fernandes Tomás, assim como o impulso conferido a estas iniciativas a partir de 1914 pela primeira câmara eleita após a implantação da República, vieram pôr em causa a manutenção no seu local original do monumento em honra de D. Pedro V.Na sessão da Câmara Municipal do Porto de 16 de Julho de 1914, o vereador Elísio de Melo solicitou autorização para contactar os proprietários da Estamparia e da Fundição do Bolhão, no sentido de se acordar um novo local para onde deveria ser transferido o monumento. Na sessão seguinte, realizada uma semana mais tarde, o mesmo vereador informou a autarquia que os referidos industriais pretendiam que o monumento fosse colocado no centro do pátio da Biblioteca Pública, e que lhes fosse permitido colocar, nas fachadas das respectivas fábricas, uma placa explicativa daquela alteração. Após alguma discussão, ficou resolvido que a autarquia tomasse a seu cargo a conservação do monumento, colocando-o num local considerado conveniente, em virtude da inexistência de espaços disponíveis próximos do sítio onde se encontrava.Uma vez retirado do local original, o monumento foi colocado junto ao muro do Cemitério do Prado do Repouso, no Largo do Padre Baltasar Guedes, onde permaneceu durante vários anos, sem que os responsáveis autárquicos tivessem encontrado o tal local adequado para o reimplantar. A "solução" estava, no entanto, praticamente encontrada. Embora ainda hoje ninguém saiba dizer quando, por que razão, ou quem o determinou, o monumento acabou por ser colocado no interior do Cemitério do Prado do Repouso, a poucos metros do local onde tinha sido praticamente abandonado, logo a seguir à entrada do cemitério pelo referido Largo do Padre Baltasar Guedes, mas agora com o objectivo de homenagear... os Bombeiros Municipais.Para além de ter sido deslocado do seu local primitivo, o monumento a D. Pedro V que os intrépidos industriais portuenses lhe dedicaram foi completamente mutilado. Todas as inscrições existentes nas quatro faces do pedestal foram arrancadas, no fuste da respectiva coluna foi enxertado um simulacro de busto em homenagem a um conhecido bombeiro, a estrela que o encimava foi substituída por uma espécie de urna de granito, donde emerge um facho de bronze, e no pedestal foi colocada uma placa de mármore onde se pode ler: "Ossário dos Bombeiros Municipais"!Estamos de acordo que, não sendo propriamente uma obra-prima, o monumento que simbolicamente os industriais e os "artistas" portuenses dedicaram a D. Pedro V apresentava uma certa harmonia e era relativamente esbelto. Mas, como já foi sublinhado, constituía acima de tudo uma autêntica e sincera manifestação de homenagem ao ilustrado príncipe, que foi Rei de Portugal - aliás, um dos mais queridos monarcas portugueses -, e que, por inúmeras vezes, demonstrou o maior apreço pela cidade do Porto e pelos seus habitantes, o qual deveria ter sido respeitado. Por tudo isto, e embora posteriormente tenha sido erigida uma outra estátua a D. Pedro V, na Praça da Batalha, o monumento ao "Bem-Amado" não merecia ter conhecido aquele destino. Ainda se está a tempo de reparar esta malfeitoria, recuperando-o na sua traça original e colocando-o num outro local mais compatível com o seu significado. E, obviamente, encontrar uma outra solução para homenagear os soldados da paz, pois o "enxerto" que foi feito no fuste da coluna também não os dignifica. Será que alguém se irá preocupar com isto?” In Público 5/9/1999


Estamparia do Bolhão - 1900


Estamparia do Bolhão – fábrica e venda ao público - repare-se que, no início dos anos 20, já previa o estacionamento de automóveis para os clientes. Uma visão do futuro.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

FOI ESTIMADA DE MUITOS REIS - I

7.5.1 - Foi estimada de muitos reis I - Conde D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Pedro I, D. Fernando I, Desastre da Ponte das Barcas, Carta de um oficial inglês sobre a invasão do Porto



Conde D. Henrique


D. Afonso Henriques



D. Fernando I

uns nos outros

Ficámos surpreendidos quando lemos que A.R.C. situa a construção de uma ponte de barcas por ocasião do casamento de D. Fernando com D. Leonor. Pois do que tínhamos conhecimento era da construção de uma ponte deste tipo quando, em 1369, D. Fernando veio ao norte com um exército para dar batalha a Henrique II de Castela quando este, após ter invadido o Minho, conquistou Braga e fez cerco a Guimarães. D. Fernando deu ordem que urgentemente se construísse uma ponte de barcas sobre o rio Douro, para que - como dizia Fernão Lopes - "...ele e toda a sua hoste pudessem passar em um dia". Esta ponte era "...de barcas triplanas, sobre que podião passar emparelhados seis homens a cavalo sem se chegarem uns aos outros". Existem ainda referências à construção de uma ponte de barcas no ano 997 pelo califa de Córdova Almansor para dar passagem ao seu exército.


Barbuda, moeda cunhada por D. Fernando entre 1369 e 1371 durante a guerra com Henrique II – site numismatas.com


Igreja do Mosteiro de Leça do Balio


Anos antes da construção da ponte das barcas, Francisco de Almada pretendeu fazer uma à cota alta, 75 metros acima do Douro, perto do local onde só em 1886 se construiu a Ponte Luis I. Porém, a sua morte prematura, o exorbitante custo e os problemas técnicos levaram ao abandono desta espantosa obra. O projecto era de Carlos Amarante. Assim sendo o Porto decidiu construir uma ponte de barcas, inaugurada em 14 de Agosto 1806.


A propósito de A. R. C. se referir à ponte das barcas mandada construir por D. Fernando I, parece-nos oportuno referir a ponte feita em 1806, onde em 29 de Março de 1809 se deu o trágico desastre em que morreram tantos portuenses, sem dúvida o maior da história da cidade.


Gravura de Henry Smith - 1813

Ponte das Barcas – 14 de Agosto de 1806 a 12 de Maio de 1809 – Dado não termos encontrado qualquer gravura que garantisse ser da ponte de 1806, onde se deu o desastre, colocámos a gravura de 1813. Segundo José António Monteiro de Azevedo, na sua “Descripção Topográphica de Vila Nova de Gaia”, contemporâneo da ponte inicial, esta “vistosa ponte, única no seu género em Portugal, e que se compõe de 33 barcas. Tendo perto de 1000 palmos de extensão, é talvez a obra mais útil de quantas se têm feito no Porto, tanto pelo prazer do passeio que ela inspira e comodidade que presta aos viajantes, como porque, a exemplo da de Ruão, sobe e desce com as marés, abre-se e fecha-se para dar trânsito às embarcações maiores e finalmente desmancha-se e restabelece-se, quando as vicissitudes do rio o exigem. É incrível o concurso do povo que diariamente passa por esta ponte, sobretudo às terças e Sábados de cada semana. Basta dizer que sendo os preços de passagem os mais cómodos e sendo isenta de paga a tropa e pessoas que vão a diligências, assim mesmo, regularmente falando rende por dia 50$000.” A tabela em referência era às taxas seguintes, que duplicavam depois do pôr do Sol: Cada pessoa a pé - 5 reis; cada pessoa a cavalo – 20 reis; carros de bois de uma junta – 40 reis; por cada junta a mais – 20 reis; cadeirinhas de mão – 60 reis; liteiras – 120 rei; seges de duas rodas – 160 reis; seges de quatro rodas – 200 reis." - In O Tripeiro VI série, ano III, pág. 171. 
A ponte de 1806 foi destruída pelos franceses em 12 de Maio de 1809 com receio de que o exército anglo-luso a atravessasse para o Porto.


O desastre da Ponte das Barcas - quadro pintado a óleo sobre cobre, existente na Capela de S. José das Taipas. Este quadro esteve no local onde hoje se encontram as alminhas abaixo. 


Alminhas da ponte – alto-relevo de Teixeira Lopes (pai)

“ …Às 9 horas da manhã do dito dia 29 de Março (1809) rompeu o inimigo pela trincheira de Santo António fabricada no Monte Pedral e logo por quase todas as partes descarregaram com tanto ímpeto sobre a cidade que atropelaram um número incalculável de povo que, afiançado nas disposições das trincheiras se não tinha prevenido para a fuga; foi grande a mortandade e muito mais na ponte do Douro, onde uns foram atropelados, outros afogados…” Memórias do Convento de Nossa Senhora do Carmo. 
O povo assustado, por causa dos relatos vindos do Minho referentes às atrocidades cometidas, fugiu em massa pela ponte das barcas com a intenção de se refugiar em Gaia. Porém a ponte, não aguentando o peso, afundou-se levando à morte de mais de 4.000 pessoas. Há quem afirme que foram mais de 10.000. Muitas pessoas em fuga atiraram-se ao rio por verem que seria impossível atravessar a ponte.


Resumo de uma carta de um oficial inglês datada de Coimbra em 2 de Abril de 1809. Descreve o que assistiu da entrada do exército francês no Porto - In portoantigo.org


Ponte das barcas – gravura do Barão de Forrester – 1835

Esta ponte das barcas é diferente da inicial, pois tem barcos mais altos, mais largos e mais afastados de forma a poder deixar passar pequenos barcos a remos sem ter que ser aberta. Era mais larga e resistente que as anteriores. Só tinha 20 barcos.