terça-feira, 2 de maio de 2017

HISTÓRIA DO CASTELO DE GAIA

8.1.3 – Construção e demolição do Castelo de Gaia - História do Castelo de Gaia, Lenda do Rei Ramiro de Leão, Morte de Gaia, Poema de Almeida Garrett



Local onde existiu o Castelo de Gaia – gravura de Cesário Augusto Pinto – 1848

Gravuras de Gaia de Cesário Augusto Pinto


Lugar do Castelo de Gaia

“Diante da Invasão islâmica da península Ibérica a partir do século VIII, e posteriormente, no contexto da Reconquista cristã da península, por volta do ano 1000, a fronteira entre muçulmanos e cristãos fixou-se no rio Douro. Diante das oscilações da linha de fronteira, a povoação de Cale (Gaia), perdeu a sua população cristã, que se refugiou na margem norte do rio. 
O primitivo castelo terá sido erguido pelas forças muçulmanas, uma vez que é referido em uma das antigas lendas associadas a Gaia, que se refere ao confronto entre o rei cristão D. Ramiro e o rei mouro Alboazer.
Com a conquista definitiva e subsequente pacificação dos territórios a sul do Douro por volta de 1035, registou-se um repovoamento da antiga Gaia, incentivado por foral passado pelos novos senhores das terras conquistadas. A nova povoação denominou-se "Vila Nova de Gaia", florescendo ao abrigo dos muros do antigo castelo de Gaia.
O nome das duas povoações - do Porto e de Gaia - era usualmente referida em documentos coevos como "villa de Portucale", e o condado do Reino de Leão no qual se inscreviam, denominado de "Portucalense".
Após a fundação do reino de Portugal, as duas povoações - Gaia e a Vila Nova - mantiveram-se autónomas. Gaia recebeu carta de foral passada pelo rei D. Afonso III em 1255 seguindo-se Vila Nova, por D. Dinis, em 1288.
O castelo foi conquistado pelo príncipe D. Afonso, filho de D. Dinis, em 4 de Janeiro de 1322. Poucos anos mais tarde, o príncipe D. Pedro, ao saber que seu pai, D. Afonso IV, tinha autorizado a morte de D. Inês de Castro, entrou em guerra aberta contra o pai e saqueou a região do Entre-Douro-e-Minho (1355-1357), tendo também se apoderado de Gaia e seu castelo. Data deste período o primeiro alcaide conhecido do castelo, Rodrigo Anes de Sá, nomeado por D. Pedro, já rei, em 29 de Julho de 1357.
Nesse período, o castelo sofreu obras de reparação ou reforço, uma vez que, em 1366, o abade do mosteiro de Pedroso forneceu vinte carros de lenha para o Castelo de Gaia, também tendo sido cedidos pela mesma instituição carros e bois para esses trabalhos.
Ainda nesse século, em 1383, ambas as povoações foram integradas no julgado do Porto, perdendo a sua autonomia. Talvez por esse motivo, em 1385 os cidadãos portuenses, a pretexto de desacordos com o alcaide Aires Gomes de Sá, assaltaram o castelo e o danificaram de tal modo que o mesmo deixou de ter alcaide. Essas informações são confirmadas pela crónica de João de Barros, que sob o reinado de D. João III, sobre o castelo registou:
"Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, cuja paróquia é Santa Marinha e junto dela está o Castelo de Gaia em um lugar alto e mui aprazível. Este castelo é já derribado, que a cidade já derribou. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César. E nele estavam umas pedras com o nome de Caio César."



Igreja do Bom Jesus de Gaia ou de Nossa Senhora da Bonança e um caminho medieval


Interior da Capela - foto O Porto Encanta

Por esta época, existiam, junto ao castelo, diversos templos: a capela de São Marcos, que a tradição considera ter sido a primeira Sé, a capela de Nossa Senhora do Castelo, a capela de Nossa Senhora da Piedade e a capela de São Lourenço mártir.




Foral de D. Manuel I integralmente
http://gisaweb.cm-porto.pt/forms/22597/documents/

O castelo é mencionado ainda no Foral Novo de Vila Nova de Gaia, passado por D. Manuel I, que refere: "Pello caseyro do castelo de Gaya setecentos reaaes."
No século XIX, a cidade esteve no centro de batalhas significativas tanto na Guerra Peninsular como na Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), quando uma vez mais o Douro marcou a fronteira entre os beligerantes. Data deste segundo conflito o desaparecimento do que restava do antigo castelo de Gaia.
Tendo as forças de Miguel I de Portugal se fortificado no local, montando aí uma bateria[4], dela fizeram fogo sobre o Palácio dos Carrancas onde D. Pedro tinha estabelecido o seu quartel-general. D. Pedro, bombardeado no seu próprio quarto, mudou-se para Cedofeita, e no dia seguinte, em sua visita de rotina às linhas, dirigiu-se à chamada Bateria das Virtudes (onde hoje se encontra o SAOM) com cujo fogo desfez o reduto do Castelo de Gaia. O que restava do antigo castelo desapareceu na ocasião (c. 1833), tendo sido o seu terreno vendido pelo Estado”. In Fortalezas.org


Local onde existiu o castelo de Gaia – blog Porto Cidade Invicta

Caminhos da História – Castelo de Gaia – Porto Canal - 2014
http://portocanal.sapo.pt/um_video/TuZBAGy5mhfoFmLN9ibL/


De acordo com uma antiga lenda, que se afirma remontar ao século X, o rei Ramiro II de Leão apaixonou-se por uma bela moura, irmã do emir Alboazer Alboçadam, cujos domínios se estendiam de Gaia até Santarém. Apesar de já ser casado, Ramiro imaginou que seria fácil obter da Igreja a anulação do seu casamento dado o laço de parentesco que o unia à sua esposa, D. Aldora. Desse modo, sob influência dessa paixão e pretendendo pedir a sua amada em casamento, Ramiro decidiu firmar a paz com Alboazer, sendo recebido no castelo deste, em Gaia.
Entretanto, Alboazer recusou o pedido terminantemente: jamais daria a mão da irmã em casamento a um cristão e, de todas as formas, ela já havia sido prometida ao rei de Marrocos...


Ramiro, vexado, aparentou aceitar a recusa e retirou-se. Entretanto, com o auxílio de um astrólogo mouro, Amã, a quem pediu que estudasse os astros para estabelecer a data propícia, levou a cabo, em segredo, o rapto da moura. Alboazer, ao dar falta da irmã, compreendeu o que acontecera e partiu imediatamente em seu encalço, logrando alcançar os raptores a embarcar no cais de Gaia. No combate que então se feriu, a sorte das armas, entretanto, foi favorável aos cristãos, tendo a moura sido levada para o reino de Leão, onde recebeu o baptismo quando recebeu o nome de Artiga, que tanto significava "castigada e ensinada" como "dotada de todos os bens".
Alboazer, para se vingar, raptou a seu turno a esposa legítima do rei Ramiro, D. Aldora, juntamente com todo o seu séquito. Quando o rei Ramiro soube do rapto ficou louco de raiva e, juntamente com o seu filho D. Ordonho e alguns vassalos, zarpou de barco para Gaia.


Aí chegados Ramiro disfarçou-se de pedinte e dirigiu-se a uma fonte onde encontrou uma das aias de D. Aldora, e a quem pediu um pouco de água, aproveitando para, dissimuladamente, deitar na bilha da água meio camafeu, do qual a rainha possuía a outra metade. Reconhecendo a jóia, D. Aldora mandou buscar o rei disfarçado de pedinte e, como castigo pela infidelidade dele, entregou-o a Alboazer.


Sentindo-se perdido, o rei Ramiro pediu a Alboazer uma execução pública, esperando, com astúcia, ganhar tempo para poder avisar o seu filho através do toque do seu corno de caça. Ao ouvir o sinal combinado, D. Ordonho acorreu com os seus homens ao castelo e juntos mataram Alboazer e as suas gentes, para além de arrasarem o castelo. Fazendo levar D. Aldora e as suas aias para o seu barco, o rei Ramiro atou uma mó de pedra ao pescoço da rainha e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora.
A lenda conclui informando que Ramiro voltou para Leão onde finalmente se casou com a moura, de quem teve vasta descendência.

Lenda do Rei Ramiro em 4 cantigas – poema da Almeida Garrett


Na introdução deste poema, sobre a Lenda do Rei Ramiro, Almeida Garrett escreveu:
“Foi das primeiras coisas d'este genero em que trabalhei; e é a mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d'este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus paes n'uma pequena quinta, chamada o «Castello», que tinhamos áquem Doiro, e que se dizia tirar esse nome da vizinhança das ruinas do antigo castello mourisco que alli jazem perto. Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradição popular. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, — cuja água é deliciosa com effeito; e tenho idêa de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San'Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirado eu, como elle, n'um resto de muralha velha do castello d'elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra tambem.
Assim ólho para ésta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me apparecesse agora; e quero-lhe — que mal ha n'isso? — quero-lhe como a tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale. Lisboa 24 de Janeiro 1844”.


Morte de Gaia – Gravuras de José Maria Baptista Coelho

«Perguntas-me porque chóro!..
Traidor rei, que heide eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu podêr vim parar.

«Perguntaste-me o que miro!..
Traidor rei, que heide eu mirar?
As tôrres d'aquelle alcaçar
Que ainda estão a fumegar:

«Se eu fui alli tam ditosa,
Se alli soube o que era amar,
Se alli me fica alma e vida…
Traidor rei, que heide eu mirar?»

— «Pois mira, Gaia!» E, dizendo,
Da espada foi arrancar:
«Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»

Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fóra impuxa o corpo…
O Doiro que os leve ao mar.

Do estranho caso inda agora
Memoria está a durar:
Gaia é o nome do castello
Que alli Gaia fez queimar;

E d'além Doiro, essa praia
Onde o barco ia a aproar
Quando bradou «Mira, Gaia!»
O rei que a vai degollar,

Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem — Miragaia
D'aquelle fatal mirar.

Final da lenda do Rei Ramiro – Almeida Garrett

Lendas de Gaia – Joel Cleto

No Porugaliea Monumenta Histórica, no livro das linhagens, encontra-se, em língua galego-portuguesa, a descrição da lenda de Gaia:

Este he o linhagem dos mui nobres e muy honrados ricos-homens, e filhos-dalgo da Maya, em como elles vem direitamente do muito alto e mui nobre rey D. Ramiro; e este rey D. Ramiro seve casado com huma rainha, e fege nella rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Myer: entom era rey Ramiro nas Asturias: e quando Abencadão tornou adusea para Gaya, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe ende muito, e enviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobrioa de panos verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, ca entonce Douro era cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiosse em panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu filho e com os seus vassalos que quando ouvissem o seu corno que todos lhe acorressem, e que todos jovecem pela ribeira per antre as arvores, fora poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fora do castello, e fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzella que servia a rainha levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella donzella havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e nom o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia e ella deulha por hum autre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido eom sa molher a rainha pela meadade; el deuse a beber, e deitou o anel no autre, e a donzella foice, e deo agoa a rainha, e cahio-lhe o anel na mão, e conheceoo ela logo: a rainha perguntou quem achara na fonte: ella respondeu que não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe nom negace, ca lhe faria por ende bem, e merce; e a donzela lhe disse entom que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira d'agoa que bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe disse a rainha que lhe fosse por el, e se hi o achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a rainha, e dicelhe – «Rey Ramiro quem te aduse aqui?» – E el lhe respondeu – «ca o teu amor» –: e ella lhe dice que vinha a morrer, e elle lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice a donzela que o metese na camara, e que lhe não dese que comese nem que bebece; e a donzela pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e derãolhe que jantace, e depois de jantar foise para a rainha; e desque fizerão seu plazer, disse a rainha – «se tu aqui tivesses rei Ramiro, que lhe farias?» – O mouro então respondeu – «o que el a mi faria: matalo.» – Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse – «es tu rey Ramiro?» – e elle respondeu – «eu sou» – e o mouro lhe perguntou – «a que vieste aqui?» – elrey Ramiro lhe disse entom – «vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de ti:» – e o mouro lhe disse – «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?» – Elrey Ramiro era muito faminto e respondeolhe assim – «eu te daria um capão assado e huma regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa chea de vinho que bebesses: em cima abrira partas do meu curral, e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, e fariate tanger o corno, ate que te hi sahice o folego.» – Então respondeo Abencadão – «essa morte te quero eu dar.» – E fez abrir os currais, e fezeo sobir em hum padrão que hi entom estava; e começou rey Ramiro enton em seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterão-se pela porta do castello, e el deceuse do padrom adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, e descabeçando ata o menor mouro que havia em toda Gaya, andarão todos a espada, e nom ficou em essa villa de Gaya pedra sobre pedra que tudo não fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramyro deitouce a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e diselhe, porque chorava, e ella diselhe – «choro por o mui bom mouro que mataste» – e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao padre – «padre não levemos comnosco mais o demo.» – Entom rey Ramiro filhou uma mo que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e des aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que lhe punha este nome porque seria padre e senhor de muito boa fidalguia; e morreo rey D. Ramiro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in pace.
Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores, pp. 180-181


Cais de Gaia – 130 anos depois – foto António Moura

5 comentários:

  1. O texto medieval da Lenda de Gaia, constante do Segundo Livro de Linhagens, está em http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/linhagem.htm.

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    1. Muito obrigado. Vamos fazer referência ao livro.

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  2. Olá
    Não sabia da existência deste castelo em Gaia.
    Obrigado.
    Cumprs
    Augusto

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    1. Mas supomos que já conhecia a lenda de Mira Gaia.

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  3. Olá
    Creio que já li algo sobre a lenda de Mira Gaia.....
    Cumprs
    Augusto

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