segunda-feira, 14 de maio de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XL

9.40 -  CAMILO E O PORTO – I - TEXTO DE JULIO DANTAS PELO CENTENÁRIO DA MORTE DE CAMILO (1890), Contenda entre o Bispo e o povo do Porto, Ruas e lugares na memória de J.D.


Júlio Dantas (1876-1962) foi designado pela Academia das Ciências para representa-la, no Porto, na homenagem a Camilo Castelo Branco, pelos 100 anos da sua morte. Porém, por motivos de falta de saúde não pôde deslocar-se, mas enviou um excelente texto que abaixo parcialmente transcrevemos de O Tripeiro, Série VI, ano 2:


Camilo Castelo Branco


A propósito da contenda do bispo e o povo a que se refere o autor, intercalamos um texto alusivo, publicado no Jornal de Notícias de 31/12/2006):

“D. Martinho Rodrigues (1191-1235) e a contenda com a cidade
Bairro da Sé. Eis aí um dos livros abertos da história do burgo portucalense. Entra-se nele a partir do Terreiro da Sé e fica-se, desde logo, a fazer parte da família de fantasmas que o povoa. Lá vai a sombra do último questor ou demandador - oficial da Mitra encarregado de arrecadar as rendas que os fiéis eram obrigados a pagar ao bispo. E lá vai, esgueirando-se rente ao muro, embrulhado no seu albarnoz alvadio, o mercador judeu a caminho da sinagoga, ali para as bandas das Aldas. Lá vai, agora, a sombra de D. Martinho Rodrigues, o arrogante prelado que o povo, cansado de tantas extorsões, meteu a ferros na torre do seu próprio paço donde ele logrou fugir para se dirigir a Roma e alcançar do Papa um anátema sobre a sua própria cidade .Vale a pena recordar esta contenda que a cidade travou com o seu bispo. Foi há quase 800 anos. Completam-se em 2009. E o palco dessa luta foi o bairro da Sé. Onde, como escreveu Firmino Pereira, " em cada uma das suas pedras se inscreve uma façanha heróica, porque foi precisamente nessa parte do burgo que mais energicamente se afirmaram as energias da raça na defesa dos seus direitos e dos seus foros tantas vezes afrontados pela cobiça dos bispos.

Um desses bispos foi D. Martinho Rodrigues que governou a diocese do Porto de 1191 a 1235. Por esse tempo o burgo portucalense não ia além do morro da Pena Ventosa em cujo cume se situava a Catedral e a residência do prelado. O senhorio da cidade, como tantas vezes aqui se tem dito, pertencia ao bispo da diocese desde os remotos tempos de D. Hugo. Os cidadãos do Porto, em especial, mas os moradores da cidade, em geral, eram considerados vassalos do bispo. E D. Martinho Rodrigues, especialmente este, era um prelado ambicioso. Como senhor da cidade, arrecadava os impostos sobre todos os géneros e mercadorias que entravam ou saíam no burgo. E lançava cada vez mais impostos sobre o povo que, naturalmente descontente, protestava. Pinho Leal escreveu no seu "Portugal Antigo e Moderno" que a certa altura, o povo, cansado de protestar baldadamente contra as prepotências do bispo, "… amotinou-se e, furioso, acometeu contra o paço episcopal arrombando as suas portas e invadindo-o; e chegados aos aposentos do bispo lançaram-lhe em rosto os vexames de que eram vitimas após o que o prenderam no próprio paço onde ficou pelo espaço de cinco meses..." Passou-se isto em 1209. Há quase 800 anos. É da história que D. Martinho Rodrigues conseguiu, ao fim de cinco meses de encarceramento, fugir da prisão, de noite, e dirigir-se a Roma onde "chegou em miserável estado". Na cadeira de S. Pedro sentava-se por essa altura Inocêncio III a quem o bispo pediu que fulminasse com a pena de excomunhão os chefes do levantamento popular indicando especialmente dois cidadãos João Alvo e Pedro Feudo Tirou (tirou o feudo ou vassalagem). Mas foram apenas dois os burgueses do Porto que participaram no levantamento? Claro que não.

Os cabeças do motim, se assim se pode dizer, eram ao todo vinte. E estão devidamente identificados João Alvo e seu irmão, Mendo Guilherme; Vicente Mendes, genro de João Alvo; Afonso Gondom das Eiras; Tirou Martins Pires e Vicente, ambos genros de Pedro Feio (Petri Fedi) ; Pedro Soares, filho de Soeiro Monis; João Vai-Vai; Fernando Monis; Gonçalo Godinho; Pedro Mouro; Pirro das Eiras; Pedro Feio (Petrum Fedum); Paio Martins; Mendo Bicas; Soeiro Gulherme; João Ferreira do Monte; João Surdo; Reinaldo Agulheiro; e Miguel Meigenga. Todos estes "cidadãos portucalenses" ficaram sujeitos à sentença canónica que os considerou "infames" e por isso foram excomungados. Só que, quando a sentença chegou ao Porto os cidadãos do burgo, incluindo os directamente atingidos, encolheram os ombros e "altivamente afrontaram a censura eclesiástica" com um simples desabafo: "excomunhão não brita osso" que é como quem diz, "não interessa…" ou seja não é para levar a sério. Sabe-se que os "condenados" se alhearam por completo da sentença e da causa que lhe deu origem. Foram, por isso, julgados à revelia pelos juízes apostólicos e a pena que lhes foi aplicada só podia ser levantada se eles dessem "uma satisfação conveniente" ao bispo e implorassem a Roma a absolvição. Nada disso aconteceu e foi o próprio D. Martinho Rodrigues, anos mais tarde, quando regressou ao Porto, que solicitou de Inocêncio III a absolvição dos excomungados. Consta do "Censual do Cabido da Sé do Porto" que o bispo D. Pedro Salvadores, que sucedeu a Martinho Rodrigues, quando morreu, em 24 de Junho de 1247, contemplou, no seu testamento, Pedro Feio com quatro morabitinos e João Alvo com dois. O que pode significar que havia então bom entendimento entre a Mitra e os homens da cidade.

Não foi só com a sociedade civil que o bispo D. Martinho Rodrigues teve problemas. Houve também uma séria questão entre ele e os cónegos da Sé. Por causa da divisão das rendas da diocese entre o bispo e os cónegos. Tudo começou na administração de D. Martinho Pires que antecedeu D. Martinho Rodrigues na Mitra portucalense. Quando chegou ao Porto, Martinho Pires, tratou imediatamente de reorganizar o Cabido e incluiu nessa reorganização a divisão das rendas do bispado em três partes sendo que duas reverteriam a favor do bispo e uma era atribuída ao Cabido. O bispo recolhia duas partes porque, alegou, "lhe competia zelar pela fábrica da Sé", isto é administrar o edifício da Catedral, sua conservação, pagamento de ordenados a funcionários, etc. Dali em diante os cónegos deixariam de viver em comum, como até ali, segundo as regras de Santo Agostinho e passariam a viver "secularmente" ou seja onde quisessem e como entendessem. Com a subida de D. Martinho Rodrigues à cadeira episcopal do Porto os cónegos tentaram revogar a medida imposta pelo prelado anterior mas o novo bispo do Porto não aceitou e manteve a determinação de só pagar aos cónegos o vestuário e o sustento”. 


Entrada da Viela da Neta na Rua de Sá da Bandeira, hoje inexistente- Portojofotos


Rua das Aldas – foto José Paulo Andrade


Cordoaria na zona da antiga Praça do Olival – Foto Alvão -1930


Areinho de Miragaia – antigo estaleiro

…velas que haviam de fazer a conquista de Ceuta.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XXXIX

9.39 - Testemunho do jornalista Frank Barrett do Daily Mail - 8/2/2015  


O charme da Invicta continua a conquistar a imprensa internacional. Desta feita, os elogios vêm de Frank Barrett, editor de viagens do jornal britânico Daily Mail, que considera que "o Porto é perfeito" e defende que "Portugal é um dos pontos turísticos mais subvalorizados da Europa".
Num artigo publicado este mês no The Mail on Sunday, edição de domingo do jornal, Frank Barrett fala das suas viagens a Portugal, "célebre, claro, pelas praias douradas do Algarve, onde esplêndidas extensões de areia se misturam com as águas do Atlântico, superando, de longe, qualquer coisa que possa encontrar-se na vizinha Espanha".


Foto de M. F. Santos

Porém, alerta Barrett, se "o Algarve é ótimo", "o Porto é perfeito". "Há muito tempo que queria visitar a cidade do Porto, mas não pude fazê-lo até ao fim de 2014 e valeu a pena esperar", afirma o jornalista, que assegura que "é difícil imaginar um local mais perfeito para umas curtas férias". 


"O Porto é um baú do tesouro feito de ruas empedradas estreitas que nos levam da margem do rio à parte mais alta da cidade, cuja principal estação ferroviária [a Estação de São Bento] é uma joia da arquitetura", escreve o cronista, destacando os "bonitos azulejos" que a decoram, à semelhança do que acontece com muitos outros edifícios portuenses.


Frank Barrett tece, também, elogios ao hotel The Yeatman, amplamente premiado, que se distingue não apenas pela sua arquitetura, mas por um "maravilhoso" spa e pela famosa piscina com vista panorâmica sobre a "fantástica" cidade do Porto.


O editor de viagens do Daily Mail recomenda ainda um passeio no Teleférico de Gaia para apreciar a vista das caves do Porto e uma ida à Livraria Lello, que descreve como sendo, "provavelmente, a mais bonita livraria do mundo".
"O verdadeiro charme do Porto é que é surpreendentemente compacto, o que significa que é possível desfrutar da cidade a pé", partilha Barrett, apontando, por fim, uma última vantagem de uma estadia na Invicta: os preços acessíveis.
De realçar que, ao longo do artigo, o cronista não esquece, também, outras zonas de Portugal, deixando, igualmente, elogios à cidade de Lisboa e à vila de Sintra, bem como à região do Minho, todas elas "perfeitas para uma pausa em qualquer altura do ano".

Porto: A City Full of Historic Surprises - Joe Journeys
http://www.pressreader.com/bookmark/HS8NMMPGBEK/

Porto – Video com fotos de Alvão e outros -

sexta-feira, 4 de maio de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XXXVIII

9.38 - Memórias de uma tripeira que vive em Cascais há 20 anos - mas tem o Porto no coração. 



Ah carago, sou tripeira sim senhor!!!!
E apesar de viver cá em baixo há 20 anos e ter Cascais entranhado no meu coração para todo o sempre, e cada vez mais amar Lisboa de paixão, o meu coração há de ser sempre tripeiro!!

E enganem-se quem acha que chamar-nos tripeiros é uma ofensa! É um orgulho! Uma coisa que não se explica, sente-se!
Tal como os alfacinhas também devem sentir o mesmo. Eu não ia com a minha avó ao Chiado nem fazer compras para Campo de Ourique. Não brinquei no Jardim da Estrela nem fui lanchar à Versalhes.


Mas comprava sapatos da Heidi na Senhora da Luz, ia ao Morgado comprar presentes de Natal e uma viagem até à baixa para ir ao Bazar Paris era um dos melhores presentes que me podiam dar!



Ia ver filmes ao Pedro Cem e à missa a Cristo Rei e às Carmelitas. Comprava tigelinhas de mousse na Minhotinha e apanhava o 78 para a escola.


Comprava flores no Mercado da Foz e cigarros para a minha mãe no Ferreira. Tomava café na Juquinha e comia croissants na Doce Mar.


Cerca de 1900

Ao Domingo almoçávamos na Varanda do Sol e brincávamos nas rochas da Praia da Luz e subi vezes sem conta a estátua do Homem do Leme. Nunca entrei no Castelo do Queijo mas ia ao Sá da Bandeira ver peças.


Construía espantalhos em Serralves com a escola e ia ao primeiro Continente de todos fazer compras com a minha mãe.
Pendurava a roupa em cruzetas e usava meias calças quando estava frio. Ao Sábado íamos buscar tripas à Cufra ou à Concha d'Ouro e comia lanches na Bacelar!
A água do banho saía do cilindro e os ovos estrelados eram feitos na sertã! Chamávamos o picheleiro e comíamos bijous. Para o arroz, a minha empregada fazia um estrugido e na sopa punha-se penca! Passei a minha infância de repas e tirava catotas do nariz. Quando larguei as fraldas, mijava no pote e deve ter sido nessa altura que fui para o Centrinho (em Nevogilde).



Os azeiteiros usavam palitos no canto da boca e iam passear para a avenida ao Domingo. E quando jogava o Boavista, não se conseguia estacionar em minha casa.
O Pedro Begonha usava T-shirt preta fosse Verão ou Inverno e o Daniel era um anão que andava sempre por ali.
O leiteiro, o peixeiro e o padeiro deixavam os sacos na porta de casa e a minha avó obrigava-me a dar um beijinho à senhora que vendia couves num carrinho de mão. (Ela tinha barba, 4 verrugas e não tinha dentes!!).


Os gunas andavam sempre pendurados no eléctrico e tínhamos de fugir deles quando nos atiravam pedras.
Festejávamos o São João com alhos e martelos e em Agosto íamos à procissão do São Bartolomeu. 


Augusto Leite - a célebre "mercearia" da Foz do Douro



Íamos ao Augusto Leite comprar bicos de pato e ao Ténis comer filetes com salada russa. Comia iscas de bacalhau e os totós eram uns lorpas.
As empregadas tratavam-nos por "menina" dos 0 aos 88 anos e íamos à Brasília comprar roupa na Cenoura.
Amo Lisboa de paixão! Cada vez mais!!! E não! Não andei no Pedro Nunes nem ia às Amoreiras fazer compras. Mas tenho muito orgulho em ter este sangue nortenho e murcão! Em dizer carago à boca cheia, em chamarem-me gaja sem ficar ofendida e fazer vénias ao meu FCP! Não somos bichos, só somos orgulhosos em ser tripeiros!!
In Facebook – 2015

Porto Portugal Some Impressions 2015 - Nico Ruijter
https://www.youtube.com/watch?v=YHVjR3IHsgk

Estudantes testemunham a sua estadia no Porto
https://www.jn.pt/nacional/especial/interior/tripeiros--do-mundo-9204324.html 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XXXVII

9.37 -  "Pela noite -Indagações Rui Moreira", Passeio noturno de Rui Moreira, O Porto visto por Richard Zimler


Pela noite -Indagações Rui Moreira"
No Público- Local de hoje (14 de Maio 2006)

«Passeei à noite pela Baixa. Abandonei o carro na Rua do Ateneu,


na esquina onde havia o mural do "preto da Casa Africana", carregado de caixas de chapéus, e admirei a fachada iluminada do silencioso Rivoli. Parei na D. João I, com os seus corcéis recortando a fachada listada do Palácio que foi Atlântico. Passei pela Brasileira e resisti ao café romano porque uma faixa prometia um aterrador karaoke. Segui a calçada portuguesa e entrei na Sampaio Bruno, onde havia transacções ilegais de acções quando a Bolsa disparou em vésperas da Revolução, e de moeda estrangeira quando os cravos desabrocharam.


O antes e o depois…

Quase sem querer, porque de facto não queria, cheguei aos Aliados que não via há meses. Quando lá passo de carro, prefiro fixar o autocarro à minha frente para não olhar o que me desgosta.
A calçada desapareceu e há um manto escuro de granito, um derrame de nafta que se espalha e já não espelha a luz. Recordei-me da Noite de Abril, de Sophia, e vi que uma nova praça destruiu a praça do costume.


…já sem o seu jardim...

Olhei a Menina Nua, cabisbaixa entre arames, e entrei no Guarani. Ganhei um novo ânimo, porque só nesta cidade se toma por 85 cêntimos o melhor cimbalino do Mundo ao som do piano. 


Saudei o D. Pedro que resistiu, valente, à rotação a que fora condenado. De costas voltadas, despreza as modas, repousando o olhar nas Cardosas. De esguelha, é verdade, porque, ainda inconformado com a Estação de São Bento, prefere mirar o modernismo da Vitália. Egito Gonçalves explicou que "razão teve el-rei para doar à invicta cidade o coração, mas esse posto a salvo no resguardo prateado da Lapa: ali ouve missas, concertos de órgão. Longe do corpo, nada o perturba, goza as flores das beatas, o repouso do guerreiro".

Foto Dino Gonçalves - 2017

Subi os Clérigos, vigiado pela torre, tão alta que inspirou Jorge de Sena a acreditar que com ela a solidão se pode tornar humana. Lembrei-me dos tempos de criança em que cobiçava os brinquedos do Bazar Esmeriz enquanto a minha avó fazia compras na Aveleda, onde me davam pastilhas de mentol, do Tavares Martins enfiado na sua livraria mágica.


Na velha rua, aflita, deserta e velha, sobram as lojas de vestidos de noiva, talvez porque infeliz e esquecida, se metamorfoseou numa daquelas donzelas desenganadas que passavam décadas cuidando do enxoval e esperando a chegada do prometido noivo, que nunca regressaria da viagem em busca da fortuna no Brasil. 
Aterrado com o chão de granito sarapintado das Galerias de Paris, trepei a escadaria da Praça de Lisboa, que foi feira e estacionamento antes de ser uma galeria com cafés e livrarias. Agora que o fast food morreu, mais não é que uma tampa vazia, com aba betonada.


Estátua de D. António Ferreira Gomes – escultor Arlindo Rocha - 1991

Do outro lado da praça, alguém que não apreciava o nosso querido bispo António inspirou-se no Batman para o esculpir em formato de morcego.
Atravessei a Cordoaria, mal iluminada por horríveis pimenteiros. Perdeu a má fama, mas sucumbiu ao mau gosto; a sua magia deve estar enterrada nas campas rasas que fazem a vez de bancos. Instalaram bonecos em posições duvidosas, mas esvaziou-se de gente de corpo e alma, deixando o António Nobre mais só entre os gordos plátanos que sobreviveram ao vandalismo bacoco.


...mais conhecido pelo Piolho

Apreciei as novas tílias envergonhadas plantadas às três pancadas à porta do Piolho, onde reinava grande animação, e resisti a entrar na Carlos Alberto careca que deve ao Ricardo Figueiredo não ser hoje um tanque de rega. Admirei o Art Deco dos Cunhas que ainda prometem novidades sob o seu pavão emplumado que desafia os Leões.
Na Gomes Fernandes, ao lado da neonizada Quinta do Paço, onde se comprava nata e que agora anuncia "ecléres e chantilly", trespassa-se a loja com os bustos de halterofilistas que seguravam um desaparecido tolde.


Desci a Rua de Ceuta, evitei o túnel da discórdia e cheguei, enregelado e desanimado, ao meu carro. Guiando e ouvindo Pedro Abrunhosa na rádio, pensei que a nostalgia era um mau sinal, prenúncio da meia-idade. Chegado a casa, folheei o jornal e li que, em Madrid, havia quem garantisse que se amarraria às árvores para evitar o camartelo (ainda por cima português) da modernidade. Pensei no Pedro e no Coliseu e arrependi-me de não ter ido até à estátua do Garrett, pedir-lhe coragem emprestada para ir para a rua gritar "Basta!". »

Escolhemos este belíssimo texto porque nós, que tantos anos percorremos todos estes caminhos, sentimos a mesma nostalgia e indignação.

O Porto visto por Richard Zimler – 2 vídeos
https://www.youtube.com/watch?v=wDMfhIUrRcE

segunda-feira, 23 de abril de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO XXXVI

9.36 - António Castillo de Lucas, Testemunho extraordinário de uma aluna indonésia do Erasmus

António Castillo de Lucas (1898-1972) médico e etnógrafo de Madrid


Ex libris


1951

Uma aluna da Indonésia veio fazer o Erasmus ao Porto – eis o seu extraordinário e meticuloso testemunho: Não deixe de ler pois é mesmo bom
http://bhellabhello.wordpress.com/2014/07/06/9-reasons-why-you-should-pack-your-stuffs-and-go-to-porto-now/

quarta-feira, 18 de abril de 2018

TESTEMUNHOS E MEMÓRIAS SOBRE O PORTO - XXXV

9.35 - Testemunho de François Grosrichard, O doce percurso do Rio Douro, As cheias, As maravilhas do Douro, Monumentos do Porto, Gaia, Quintas do Douro,Vila Real


Rio Douro no areinho – Jean Pillement .Sec. XVIII

VAGABONDAGE sur le DOURO, au pays du porto
François Grosrichard
ARTICLE PARU DANS L'EDITION DU 16.12.04
Une croisière sur un fleuve paisible au milieu des vignes et des chais, ponctuée d'escales racontant l'histoire du Portugal
Qu'il est doux le nom de ce long fleuve - le Douro - né dans les monts de la vieille Castille espagnole et qui va se jeter dans les eaux portugaises de l'Atlantique à Porto ! Doux et bien tranquille aujourd'hui, parce que régulé par des barrages aux dimensions impressionnantes et des écluses gigantesques, les plus hautes d'Europe, qui font l'admiration des ingénieurs en hydraulique et de tous les amoureux des voies d'eau.


Barragem de Barca d'Alva


Mais jadis, se souviennent les anciens, ses fureurs subites, c'est-à-dire ses crues, semaient la panique en provoquant des centaines de naufrages de rabelos, ces bateaux de bois élégants au gouvernail immense à bord desquels on entassait les barriques du célèbre vin de Porto pour les descendre jusqu'aux chais et magasins de la ville-port du même nom.


Vista do Monte Raso - Régua

Fleuve, vin et montagnes sont les trois mots-clés du triptyque de ceux qui veulent connaître et apprécier ce Portugal septentrional, hier encore considéré comme en retard de développement par rapport à ses voisins européens et aujourd'hui, grâce notamment aux subventions communautaires, en plein boom.


Sur près de 240 km, le Douro traverse le Portugal d'est en ouest et constitue un itinéraire initiatique varié, sauvage la plupart du temps et toujours enchanteur. L'été, la fraîcheur de l'onde et des ombres sur le rivage apportent une bienfaisante compensation aux torrides chaleurs. En automne, sur les terrasses escarpées, roussissent les dernières feuilles des vignes.


Quinta da Erva Moira no Outono

Le tourisme fluvial a trouvé là un bon terrain de chasse. Bon et tout neuf. Car on peut faire connaissance avec un pays par les livres, l'avion qui le survole, la route ou le train qui y serpentent. Mais le découvrir par la voie d'eau intérieure a quelque chose de plus subtil, plus intime, subjectif presque. Blaise Pascal disait joliment que les fleuves sont des chemins qui marchent.



Porto das 5 pontes - foto Luis Miguel Cunha -13/6/2016

A l'embouchure du Douro, Porto et sa topographie tourmentée se débattent comme toutes les métropoles entre urbanisation rapide et sauvage et souci de préserver un riche passé. Le classement en 1996 de la ville au Patrimoine mondial de l'humanité par l'Unesco et sa nomination en 2001 comme capitale européenne de la culture avivent la curiosité des touristes et rehaussent son prestige. Il est vrai que, autant au bord du fleuve que dans la ville haute, aux alentours de la cathédrale et de la gare centrale, se lit dans les ruelles sinueuses l'histoire d'une nation qui fut jadis à l'avant-garde des plus glorieuses conquêtes ultramarines.
Mais la deuxième ville du pays offre aussi un spectacle décevant en raison des travaux du métro qui l'éventrent et de l'abandon, par leurs propriétaires privés, de demeures aux façades encore couvertes de faïences aux tons blancs et bleus. Ces maisons qui ont abrité l'opulence sont aujourd'hui délabrées, aveugles, béantes, et donnent une allure pitoyable, voire repoussante, à certains quartiers, ce qui a conduit la municipalité, soutenue par un programme financier européen, à prendre les choses (c'est-à-dire la restauration immobilière) énergiquement en main.


UNE QUARANTAINE DE CÉPAGES

Le fleuve, lui, n'a pas encore trop subi l'outrage du temps ou l'impéritie des hommes. Sur la rive gauche, à Gaïa, rivale de Porto, les chais des grandes compagnies de vin de Porto - les majors rachetant progressivement les sociétés plus petites - constituent une halte obligée dans tout programme touristique.


Se faire raconter l'histoire autant anglaise que portugaise du divin breuvage et se laisser initier aux subtils distinguos entre le porto blanc fruité et les vintages de trente ou quarante ans, dont les bouteilles, une fois ouvertes, doivent être bues sans trop attendre, procure autant d'émotions que la dégustation elle-même. Les cépages ? On en dénombre une quarantaine....


Sé Catedral – Altar de Prata

Et c'est ainsi, la tête enjouée et les papilles égayées, qu'on ira visiter la cathédrale, commencée au XIIe siècle, qui mêle de nombreux styles et abrite une chapelle du Saint-Sacrement richement et lourdement ornée de boiseries de palissandre et de panneaux d'argent et d'or brésiliens.


Le palais de la Bourse, où est installée depuis 1834 la Chambre de commerce, mérite aussi le détour. Non seulement parce que la salle du Tribunal, superbe, ne sert plus pour des audiences de justice mais pour les intronisations des membres de la confrérie des vins de porto,mais aussi parce que le « clou » des salles est le salon arabe, tout de stuc, inspiré de l'Alhambra de Grenade.


Cinco pontes do Porto – foto Luis Miguel Cunha – Junho de 2016

Mais revenons au fleuve et sur le fleuve, en en remontant le cours. Le Fernao-de-Magalhaes, paquebot fluvial blanc et vert, armé par CroisiEurope, glisse sous les six ponts de la ville, celui que construisit au siècle dernier Gustave Eiffel et les ouvrages modernes en béton. Les rives sont bien aménagées, avec marinas, clubs sportifs, aires de baignade et parcours de kayaks. Le cours d'eau est large, docile, et les villas cossues, blotties dans les pinèdes, montrent que la bourgeoisie de Porto ne dédaigne pas ces lieux de villégiature. « Ce qui se développe le plus, c'est le jet ski aux beaux jours » , note le commandant du navire, Jean-Marc Portebois, galons aux épaulettes.


Quinta do Vesúvio

MAISONS DE MAÎTRE
Plus on remonte vers l'amont, plus les rives deviennent sauvages. Les forêts d'eucalyptus remplacent les résineux. Les hérons ne sont pas effarouchés. Chaque village a aménagé son estacade, son ponton, ses quais revêtus de petits pavés de granit. Le fleuve longe la voie ferrée et la route. Parfois, le chenal se rétrécit à ce point dans les gorges qu'on croit l'échouage inévitable. D'anciens caboteurs maritimes ont été transformés en dragues pour entretenir le chenal.
Sur les hauteurs, au milieu des domaines viticoles, les maisons de maître, blanches aux toits de tuiles rouges - les quintas -, veillent sur la vallée et les alentours comme le feraient ailleurs des châteaux forts postés aux endroits stratégiques. Tout part du porto et du Douro et tout y retourne. Un sommelier rapporte ce dicton : « Dieu créa la Terre et l'homme le Douro. »
Jadis utilisé pour le transport de marchandises, notamment le granit, le Douro n'a plus qu'une vocation touristique. Tous les villages riverains se préparent à recueillir sa manne. « Les chiffres explosent, explique Francisco Lopès, administrateur délégué de l'Institut portuaire et des transports, avec 63 000 touristes sur le fleuve en 1997 et 168 000 en 2003. »


Quinta de Mateus

L'autocar est un allié précieux du bateau. Des routes sinueuses - mais bientôt une autoroute superbe en encorbellement - conduisent à Sabrosa, conglomérat de demeures seigneuriales du XVe siècle où naquit, en 1480, Magellan. Et voilà Vila Real, où prolifèrent les balcons et portails en ferronnerie d'art, et, un peu à l'écart, le manoir de Mateus, exemple achevé de l'architecture baroque à l'intérieur duquel on pourra voir, stupéfait, une collection de reliques religieuses « empruntées » il y a longtemps au Vatican et jamais restituées...
Au loin retentit la corne du Fernao - de-Magalhaes, qui rappelle à l'ordre les touristes retardataires. Il ne faut pas traîner, car la navigation sur le Douro n'est pas (encore) autorisée la nuit. Et les portes de l'écluse de Carapattelo - qui permettent d'avaler un dénivelé de 36 mètres - ferment à la tombée du jour.
François Grosrichard